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Fazer vista grossa

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Por Phil Read, Setembro 2011

Parece que a expressão “fazer vista grossa” teve origem num incidente com o Almirante Nelson, que ficou cego de um olho logo no início de sua carreira. Na Batalha de Copenhague ele recebeu um sinal (enviado através da tradicional sinalização por meio de bandeiras) dando ordens para que recuasse quando necessário. Nelson, não querendo bater em retirada, levantou o telescópio e o colocou no seu olho cego declarando que não conseguia enxergar o sinal. O significado popular dessa expressão passou a ser o processo de ignorar fatos ou atitudes inconvenientes, fingir que não se vê.

Nas organizações esse comportamento manifesta-se como um jogo.


É manipulativo, distorce a comunicação, privilegia os interesses pessoais em detrimento dos organizacionais, e tem uma compensação para a pessoa que está fazendo o jogo. Embora jogado por muitos de nós em todos os tipos de empresa, os grandes bancos têm sido um campo fértil de observação desses jogos nos últimos anos.

 

O caso Madoff e como fazer vista grossa

Irving Picard acusou o HSBC, UniCredit e Pioneer de infringirem os direitos dos clientes de Madoff¹ ao fracassar em detectar o esquema Ponzi², ou o fabuloso esquema piramidal, e ignorar os “sinais de alerta” da fraude. Durante a primeira semana de agosto de 2011, o juiz Rakoff declarou que uma lei federal tratando da falência das corretoras “não confere nenhuma autoridade” para que um trustee entre com processos e o rejeitou. Entretanto isso não significa que os bancos não estavam jogando o “fazer vista grossa”; significa apenas que um trustee não pode impetrar uma ação.

Qual o jogo que estava sendo jogado no caso Madoff?
Gostaria de separar este jogo do “jogo originaI” (o próprio esquema de pirâmide). Eis o que estava sendo jogado:
1.    Madoff garantia, ano após ano, retornos consistentes a níveis elevados
2.    Madoff jamais divulgou como e o que fazia para obter retornos tão altos
3.    Os banqueiros tiravam benefício dessa situação, recebendo honorários mais polpudos, tendo clientes satisfeitos e menos trabalho, enfim, comercializando os fundos nessa base sem se aprofundar muito no assunto
4.    Os investidores também pareciam se beneficiar dessa situação, portanto também estavam participando do jogo (e, sem dúvida, em alguns casos instigando os banqueiros, ao invés de serem considerados apenas vítimas passivas da fraude)
5.    Agências reguladoras possivelmente também estivessem jogando, porém mais por falta de recursos para investigar suas próprias suspeitas e informações do que qualquer ganho real que pudessem obter (ou talvez estivessem “temerosas” da reputação de Madoff?)
6.    Os banqueiros sempre tinham uma desculpa plausível se alguma coisa desse errado, citando a reputação de Madoff, acrescido de muita letrinha miúda dos contratos que garantiriam haver um risco mínimo nos tribunais de justiça
7.    Dessa forma se fazia “vista grossa” para aquilo que muitos sabiam ser, no mínimo, “suspeito”, e, sobretudo, fraudulento.

Vamos primeiro ouvir Madoff sobre o assunto.
Claro que Madoff era um mentiroso costumaz antes de “entrar em cena”. Entretanto, parece que agora ele não tem muito a perder, cumprindo pena de 150 anos de prisão. “Eles tinham que saber”, disse Madoff em sua primeira entrevista desde que foi preso em dezembro de 2008. “Mas a atitude era do tipo ´Se você estiver fazendo alguma coisa de errado, nós não queremos saber´” Por que eles não queriam saber? Porque compensava. “Veja,” ele declarou, “esses bancos e esses fundos tinham que saber que havia problemas”. Madoff naõ contou absolutamente nada como conseguia esses ganhos. “Eu não dava a eles fatos concretos, como o volume de dinheiro que eu estava movimentando. Eu não queria que eles viessem e fizessem a investigação (due diligence) que eles queriam. Recusei absolutamente tudo. Eu disse, ´Vocês não estão satisfeitos, não gostam disso, tirem seu dinheiro daqui´, o que obviamente eles nunca fizeram”.

Mas talvez Madoff esteja apenas tentando distribuir a culpa entre os outros para aliviar sua consciência. Vamos analisar um comentarista mais imparcial. “Embora eu relute em aceitar as palavras de um “mentiroso, ladrão e trapaceiro”, declarou Alain Sherter da BNET, “Não acho impossível acreditar que os bancos que negociavam com Madoff “sabiam da existência de algo suspeito, mas optaram por “não tomar conhecimento”. Afinal de contas isso estava de acordo com o “ethos dominante durante a crise financeira”. O setor inteiro foi capturado e enclausurado numa “roda-viva de ignorância intencional”.
Aqui temos algumas declarações evidentes quanto ao tipo de jogo que representa o “fazer vista grossa”: “ignorância intencional”, “optar por não tomar conhecimento”.

A questão real para todos nós não é saber se isso é verdade ou não (por ora só temos a evidência circunstancial que aponta fortemente na direção desse jogo estar sendo jogado).
A verdadeira questão é: em nossas empresas, nossas próprias unidades e times, nós mesmos: será que alguma vez jogamos o “fazer vista grossa”? (Que em geral se joga em conjunto com “Mate o Portador” e “Sem Más Notícias”). E quais são as conseqüências de se jogar esse jogo?

No caso dos bancos a resposta virá financeiramente a partir de algo em torno de 17 bilhões de dólares em ações judiciais. Mas isso é apenas uma parte do custo. Os outros custos são perda de credibilidade com os clientes que permanecem, perda de credibilidade do setor bancário, regulamentações mais rigorosas e perda de clientes que estão revoltados ou que perderam todo o dinheiro. Como na maioria dos jogos, no curto prazo algumas pessoas obtêm uma recompensa; no longo prazo, instituições e muitas pessoas fazem um mau negócio (como a perda total de suas economias para aposentadoria) e as conseqüências são quase sempre trágicas mesmo para aqueles que se beneficiaram inicialmente. No caso da família Madoff houve o suicídio do filho e a prisão do pai. 

Vamos todos fazer um grande esforço para jogar menos jogos e com menos “violência”. Os riscos são muito maiores do que imaginamos – para os outros e para nós próprios.
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1.    Bernard Lawrence "Bernie" Madoff (nasceu em 29 de abril de 1938) americano, ex-corretor da bolsa, analista de investimentos, presidente não executivo da bolsa NASDAQ, e operador reconhecido daquilo que foi descrito como o maior esquema Ponzi da história.

2.    O esquema Ponzi ou esquema de pirâmide é uma operação fraudulenta de investimento que paga lucros a investidores isolados, não por meio do lucro real auferido pela organização, mas a partir de seu próprio dinheiro ou dinheiro pago por investidores posteriores.

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