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Voce S/A #2

Voce_SA_NovembroComo evitar a politicagem no trabalho

Renata Avediani

Novembro 11, 2009

 

No ambiente corporativo, sempre tem alguém abusando da manipulação para levar vantagem. Um livro mapeia os jogos políticos mais comuns e mostra como se livrar deles.

Fazer fofoca, jogar a culpa em um colega, usar o nome do gestor para conseguir alguma coisa ou ir a reuniões com conchavos costurados previamente. Atitudes como essas se repetem diariamente no trabalho e têm em comum o comportamento desleal: alguém avançou o sinal para obter algum benefício pessoal. Em parte dos casos, as pessoas fazem isso conscientemente. Em outros, nem percebem a gravidade de suas ações. “Todo mundo se envolve, em maior ou menor escala”, diz Maurício Goldstein, sócio-diretor da consultoria Pulsus, de São Paulo.

Com o escocês Philip Read, executivo de RH de multinacionais como Dow, Maurício entrevistou executivos de vários países e escreveu o livro Jogos Políticos nas Empresas (Campus/Elsevier), que lista 70 comportamentos, ou jogos políticos, que ocorrem no mundo corporativo. Pouca gente discorda que é errado jogar, mas a jogatina rola solta. Por quê? “É uma forma de minimizar a ansiedade”, diz Maurício. Para quem precisa entregar resultados, os jogos oferecem um alívio, já que em geral trazem vantagens imediatas a quem participa. Em tempos de transparência, se engana quem pensa que eles estão com os dias contados. “Os jogos têm crescido porque a pressão nas empresas é cada vez maior”, afi rma Maurício.

Para o administrador Ernesto Schlesinger, de 36 anos, a necessidade de cumprir o prazo imposto pela mineradora francesa da qual era controller, em 2005, fez com que ele enfrentasse um jogo político. Responsável por montar o orçamento da subsidiária brasileira, criou um cronograma para o envio de informações necessárias ao planejamento a ser cumprido por diversas áreas. Na data combinada, poucos dados chegaram. “As pessoas se isentavam de culpa e jogavam o problema para os outros”, diz. Depois de intermediar muitas conversas, convocou os envolvidos para uma reunião e, às claras, confrontou informações e pediu que todas as pendências fossem resolvidas ali. “Acabamos com conversas paralelas e expusemos os reais problemas, para chegar à solução com rapidez.”


POLÍTICA OU POLITICAGEM?

Não há nada de mal em fazer política. Muito pelo contrário. Ela pode, e deve, ser um ingrediente importante para crescer na carreira. “Construir articulações e infl uenciar na tomada de decisão é um movimento legítimo, desde que seja algo claro e ético”, diz José Valério Macucci, consultor de liderança e professor do Insper - Ibmec São Paulo. A política faz parte da vida profi ssional e não se pode fugir dela. Segundo o consultor Gutemberg de Macêdo, especializado em recolocação de profi ssionais, muitos dos executivos que chegaram a seu escritório, em São Paulo, nos últimos meses após uma demissão demonstraram falta de habilidade para lidar com a política da empresa.

A diferença da política saudável para o jogo político está no uso da manipulação como forma de obter alguma vantagem sobre alguém ou sobre a empresa. Além disso, a politicagem é altamente contagiosa, na medida em que outras pessoas começam a reproduzir o mau comportamento quando percebem que aparentemente traz benefícios. “Os jogos políticos são contraproducentes”, diz Maurício. “Eles drenam os recursos da empresa, a energia e o tempo das pessoas.” Outra característica importante: qualquer jogo exige mais de uma pessoa para ocorrer. Portanto, não basta não iniciar um jogo. É preciso dizer “não” quando se depara com alguém jogando.

O consultor de marketing digital Alexandre de Mattos, de 35 anos, sucumbiu à tentação e entrou em uma barganha perigosa. Em fevereiro deste ano a holding do ramo de educação da qual ele era gerente fi cou mergulhada em jogos políticos quando um executivo anunciou sua saída, abrindo espaço para disputas por promoções. “As pessoas passaram a buscar alianças, segurar contratos e especular sobre os possíveis promovidos”, diz. Outro executivo, interessado em desmontar a área de Alexandre, propôs a ele uma troca: o indicaria a uma das vagas caso ajudasse esse executivo a fechar a área. Alexandre topou. “Me envolvi e quando me dei conta era tarde para desistir”, conta. Ele ganhou uma das principais gerências, mas o clima pesou, já que o acordo fi cou claro para os outros profi ssionais. Dois meses depois, Alexandre optou por deixar a companhia. “Nunca havia me envolvido nesse tipo de política e percebi que não tinha nada a ver comigo.”

RUIM PARA A EMPRESA, PIOR PARA A CARREIRA

Em geral, é difícil medir o ônus da politicagem, mas as empresas e os profi ssionais pagam caro por ela. No caso da companhia de Alexandre, a produção caiu cerca de 80% durante os 30 dias em que a discussão sobre a nova estrutura corria solta. “Um colega que costumava ganhar em média 9 000 reais por mês em comissões chegou a receber apenas 2 000 reais ao fi nal do período”, diz Alexandre. A explicação é simples: o tempo e a energia gastos para fazer articulações, negociar alianças e criar intrigas distanciou os profi ssionais dos objetivos da empresa e de suas próprias metas pessoais.

Resultados: queda de produtividade, redução da capacidade criativa, estresse e, consequentemente, infelicidade. Há também a perda de profi ssionais importantes, que não resistem ao clima hostil. “Conviver em um ambiente altamente politizado gera desmotivação, falta de comprometimento e desgaste excessivo”, diz Valério Macucci. A demissão de Maria Teresa Echeverria, de 47 anos, também se enquadra nessa estatística. Ela não foi bem aceita no novo time, depois que a empresa de cartões de crédito na qual trabalhava foi comprada. Para se adequar à nova realidade, estudou o perfi l da organização e o estilo de trabalho do pessoal.

Uma das colegas, no entanto, criou barreiras. “Ela só me cumprimentava quando os chefes estavam por perto e tinha resistência às minhas opiniões.” A situação complicou quando as duas divergiram na condução de um projeto e a executiva responsabilizou Teresa pelo insucesso da operação. Internamente, o fato gerou um desgaste com seus pares e gestores, resultando em seu desligamento 15 dias depois, em maio de 2008. “Tentei contribuir com a minha experiência, mas acho que, por ser a única executiva de fora do grupo, nunca consegui me integrar à equipe”, conta.

QUEBRE AS REGRAS

Acabar com a politicagem nas empresas é impossível. Mas reduzir ao máximo essas artimanhas pode fazer do escritório um ambiente mais saudável e produtivo. O primeiro passo é identifi car os jogos presentes em sua rotina, com pares, subordinados ou chefes, já que parte deles é praticada inconscientemente. Mostre que você não pretende jogar, interrompendo os maus comportamentos um a um: priorize aqueles que mais o incomodam, seguido dos mais fáceis (em que os envolvidos são pessoas com quem você tem liberdade para dialogar).

Por fi m, ataque os jogos que causam mais danos. “Cortar um jogo é difícil e requer treino, disposição e persistência”, diz Maurício. De acordo com a situação, há formas específi cas de tratar a politicagem. A fofoca, por exemplo, exige não repassar conversas de corredor. No geral, a melhor saída é o diálogo aberto, sem meias palavras ou intenções veladas. Agir assim, no entanto, pode gerar incômodos entre os colegas. E, sim, você pode ser visto com maus olhos na organização e, em alguns casos, até perder o emprego. “Quebrar o tabu e não entrar em jogos é arriscado, mas aumenta as chances de realização e sucesso, principalmente no longo prazo”, diz Maurício Goldstein. Da próxima vez que se deparar com um jogo político, esteja preparado.



Te peguei
O erro alheio é uma oportunidade para criticar e desqualificar quem o cometeu, a fim de ter o próprio trabalho valorizado e os erros minimizados. Uma vez descoberto, o erro é exposto a uma ou a mais pessoas e tem sua gravidade aumentada. Há maiores chances de isso acontecer em empresas que promovem a competição interna exacerbada e o reconhecimento individual em detrimento do coletivo.

Pré-acordo
É um clássico das reuniões, responsável por parte da má fama atribuída a elas. O jogador convoca uma reunião e simula uma discussão sobre determinados assuntos com os convocados. No entanto, já há um acordo estabelecido previamente com um ou mais participantes. As pessoas passam horas reunidas, mas tudo não passa de encenação.

Fofoca
Um dos jogos mais comuns. Os boatos são usados para se obter vantagem política. Em vez de confrontar alguém diretamente sobre algum problema, as pessoas criticam o colega para terceiros. A ação pode ter um objetivo específico, como denegrir a imagem de alguém, ou apenas como uma forma de se queixar. A fofoca tende a ocorrer em culturas voláteis, na qual há muita mudança e pouca comunicação.

Zona cinza
É um jogo de liderança. O chefe não deixa clara as responsabilidades de cada um na equipe. Isso cria tensão no grupo, que passa a trabalhar mais duramente. O jogo visa aumentar a produtividade, o que beneficia o chefe. Para o mau líder também é uma forma de evitar conversas difíceis e conflitos. No começo, pode funcionar, mas o desgaste emocional prejudica o desempenho das pessoas com o passar do tempo.

Culpa
Em vez de encarar o próprio fracasso e admitir a incapacidade para alguma tarefa, as pessoas buscam culpados. A culpa pode ser atribuída a pessoas, grupos, eventos ou situações. Não é raro ver um profissional que não consegue atingir as metas, por exemplo, responsabilizar a equipe, o mercado e os clientes por isso.

Marginalização
As pessoas são excluídas de equipes ou grupos por ameaçarem o ambiente, por serem diferentes ou por não se enquadrarem à cultura. Esse boicote exclui o profissional dos processos de tomada de decisão e limita seu desempenho. A marginalização pode ser explícita ou algo mais velado, como o gestor que delega ao funcionário uma tarefa que o deixará fora das etapas estratégicas de um projeto.

Erro de cálculo
Muitos jogos envolvem as finanças da empresa: os profissionais jogam para baixo a previsão de vendas ou apresentam um orçamento maior do que o necessário, para obter meta mais fácil de realizar. Se a empresa desconfia do erro, perde a confiança no pessoal e retribui com maior pressão. Se a empresa não desconfia, perde desempenho bruscamente.

Cópia
O jogador envia um e-mail ou documento com cópia a algum chefe, colega ou profissional, com o intuito de demonstrar poder ou intimidar uma terceira pessoa a executar determinada tarefa. Por fugir do padrão normal da comunicação, gera suspeita e desconfiança, já que fica evidente que por trás da cópia há algum tipo de motivação não revelada.



ENTREVISTA Maurício Goldstein - “JOGAR É HUMANO”

Acabar com os jogos políticos é impossível, mas o profissional pode — e deve — escolher não jogar. É o que diz o consultor Maurício Goldstein, coautor de Jogos Políticos nas Empresas (Campus/Elevier). “Minimizar os jogos é tarefa que começa em casa”, diz Maurício.

? De onde surgiu a ideia do livro?
! Pensamos em fazer um livro com um tema polêmico, que cutucasse o mundo corporativo. Não criamos nada, apenas demos nome a situações que todo mundo vive no trabalho.

? Como nascem os jogos políticos?
! Jogar é humano e é uma forma de gerenciar a ansiedade. Na medida em que eu não sei como lidar com alguma situação, crio um jogo, que costuma trazer resultados rápidos. Por isso é que são repetitivos e altamente contagiosos. Os ganhos aparecem muito rápido e jogar vira prática comum.

? Que tipo de ambiente propicia a politicagem?
! Os jogos políticos estão relacionados à maturidade emocional, relação de confiança e no diálogo transparente. Logo, é comum que se proliferem com mais facilidade em culturas rígidas e hierarquizadas, ambientes tensos e com muita pressão.

? Há diferença de acordo com os países?
! Os jogos variam de acordo com a cultura do país, mas estão sempre lá. No Brasil, por exemplo, temos dificuldade de dizer “não”, o que faz com que fiquemos mentindo. Já no Japão, onde honra é um valor cultural forte, tem um jogo chamado “projetos especiais”, que é quando o gestor cria um cargo extra para não demitir um profissional.

? Como acabar com os jogos no trabalho?
! Não dá para eliminá-los por completo, mas é preciso diminuir sua ocorrência. O primeiro passo é identificar em quais contextos você joga no dia a dia. Depois, agir para acabar com aqueles que mais lhe incomodam e atrapalham o trabalho. Reitero que o diálogo é a melhor tática para isso. Não é fácil, mas como temos controle apenas do nosso comportamento, minimizar os jogos políticos é tarefa que deve começar em casa.

 

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Jogo L4 - Envolvimento de Faz de Conta

Para jogar o Envolvimento de Faz de Conta, o gerente realiza pesquisas de opinião, reúne grupos de discussão ou convoca reuniões de envolvimento para comunicar que "sua opinião conta", mas tudo isso tem como objetivo apenas fazer com que as pessoas se sintam participantes, em vez de fazê-las participar realmente. A verdadeira intenção é apenas evitar queixas e fazer com  que os gerentes possam mostrar para seus chefes que estão "fazendo a coisa certa" - engajando seu pessoal no processo de tomada de decisões. Esse mesmo jogo ocorre quando os líderes envolvem superficialmente os subordinados diretos, solicitando seus pontos de vista sobre a estratégia do departamento, mas confiando apenas na propria opinião pessoal. O cinismo acaba sendo a resposta final dos subordinados a esse tipo de jogo, e perde-se  o respeito pela liderança. E a coisa é talvez ainda pior quando o gerente necessita de que seu pessoal se mostre realmente comprometido e colaborativo em um grande projeto, e encontra dificuldade em assegurar seu envolvimento.

Elogios sobre Jogos Politicos

jacopoUma leitura fantástica não apenas para líderes e executivos seniores, mas também para os profissionais que querem crescer dentro de organizações complexas. Goldstein e Read dissecam a dinâmica interpessoal que afeta o desempenho da empresa, proporcionam uma estrutura conceitual para compreensão dos jogos praticados nas empresas, e oferecem ferramentas práticas para correção desses comportamentos e aumento da eficiência.

Jacopo Bracco vice-presidente executivo, DIRECTV Latin America

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